Descoberta uma porta de entrada para o estresse no cérebro.

Jornal La Presse.ca

O estresse leva à depressão, especialmente se ocorrerem eventos difíceis durante a infância. Um estudo envolvendo três pesquisadores do Quebec encontrou uma “porta” entre o sistema sanguíneo e o cérebro que desempenha um papel crucial na equação estresse-depressão. O trabalho poderia levar ao desenvolvimento de novas drogas e um melhor teste de diagnóstico para a depressão.

“Existe um interesse crescente pela ligação entre o sistema imunológico, que é estimulado pelo estresse social, e pelo cérebro”, diz Caroline Ménard, autora principal do estudo publicado ontem na revista Nature Neuroscience e neurobiologista na Faculdade de Medicina Mount Sinai em Nova York – e que começara em fevereiro a trabalhar na Universidade Laval, Quebec. “Estamos tentando entender como as moléculas do sistema imunológico que circulam no sangue entram no cérebro. Encontramos uma porta na barreira hemato-encefálica que separa o sangue e o cérebro.”.

O tipo de estresse que leva à depressão pode ser o excesso de trabalho. O estresse durante a infância (pobreza, separação dos pais, violência) também aumenta o risco de depressão na idade adulta.

Quando esta “porta” entre o sistema sanguíneo e o cérebro estava aberta, uma área do cérebro muito importante na depressão e regulação do humor foi invadida por moléculas do sistema imunológico que são geradas pelo estresse. Os neurônios desta região, chamados nucleus accumbens septi, foram afetados por essas moléculas do sistema imunológico. Os pesquisadores demonstraram isso nos ratos e também graças a dois bancos de cérebro no Texas e no Instituto Douglas na Universidade McGill, em Montreal.

“Com esta descoberta, poderíamos usar ressonância magnética para ver as pessoas que têm uma porta aberta”. Pode-se ter um diagnóstico mais preciso da depressão. Explica Caroline Ménard.

Um passo preliminar na limitação do número de pessoas que seriam examinadas por ressonância magnética seria medir no sangue a presença de moléculas provenientes do cérebro, que também circulam pela “porta” aberta pelo estresse.

A outra via de pesquisa que a Sra. Ménard quer seguir quando se mudar para a Universidade Laval é estudar pessoas mais resistentes ao estresse do que outras. “Existem ratos resilientes cuja porta na barreira hemato-encefálica não se abre na presença de estresse”, diz Ménard. Podem-se identificar os genes ou moléculas que entram em jogo. “Isto poderia ser um alvo para fechar as portas e tratar a depressão.”.

Em números:

1.9 vezes

Aumento do risco de depressão em crianças cujos pais se separam antes de terem 7 anos de idade

3,5 vezes

Aumento do risco de depressão para crianças cujos pais estão se separando e cuja mãe começa um novo relacionamento antes de terem 7 anos de idade

3,4 vezes

Aumento do risco de depressão em crianças nascidas de mães solteiras

Fonte: American Journal of Psychiatry