Dor psíquica

Maria Helena Alcântara Lisboa

Neste Artigo, é apresentada uma sessão de psicoterapia para que possamos refletir sobre o doente psicossomático, relação entre dor física e dor psíquica.

M, paciente de 52 anos, sofreu uma mastectomia há anos atrás, alguns meses após a morte dos pais. Depois de sete anos é detectado câncer nos ossos, reage bem ao tratamento. Esta sessão acontece 6 meses após o aparecimento do câncer. O Médico acha que o câncer não esta progredindo.

Sessão

M chega à consulta contando:

– Um homem no elevador estava comentando com uma moça que vai ser feriado na ECO 92, porque podem colocar bombas para matar os dirigentes estrangeiros.

É engraçado a percepção das pessoas. Meu filho vai sair do Brasil; os papéis já estão preparados está fazendo um curso de inglês intensivo. Já esta marcado o dia da viagem. Ele está feliz. Eu também estou feliz. Falei que ele tem que aprender a passar roupa, cozinhar. Ele vai ter que fazer tudo isto quando estiver sozinho. Está com nicotina no dente. Deve estar fumando muito. Não se pode enganar a uma dentista.

Tenho sentido muita dor na coluna. Está me afetando os movimentos. Fui arrancar um dente siso, não estava agüentando. O dente estava preso no ossos. Normalmente, já teria dificuldade ao se fazer a extração. Mas eu sentia muita dor.

Uma cliente estava me falando da morte da mãe dela de câncer na coluna. Ela teve uma depressão forte. Eu fazia muitas perguntas. Eu parecia uma masoquista. Acho que quero saber o que vai acontecer comigo. Ela sofreu? Tomou morfina?

Sempre tive uma ideia que a vida fosse uma fila de pessoas esperando morrer; só que não se sabe o lugar. A morte é inexorável. Tenho pensado que tenho que viver na melhor maneira os meus momentos. Não tenho grandes planos.

Meu marido fez uma briga porque tem que mudar os amortecedores do carro aos trinta mil Km. Ele diz que sou descuidada e que caio muito nos buracos. As vezes eu caio sim, mais eu não quero que quando ele começa a brigar, bata a porta e saia.

Terapeuta:
– Você começa falando de bomba, da viagem do filho, de estar feliz e depois fala da dor na coluna. Acho que você não pode falar da dor da separação do filho, que está tão profundamente ligado a você (como o dente siso no osso). Parece que tem medo que o efeito dessa viagem sobre você seja uma bomba (paciente faz força para não chorar).

Paciente:
– Eu tenho chorado escondido, mas eu não posso enfraquecer. Ontem eu estava o com o nariz entupido. Meu marido perguntou se estava chorando. Ele controla tudo.
Talvez eu sinta culpa por meu filho ir embora. Tem dois motivos para ele ir embora: vontade intensa de viver em outro lugar, eu também tive; ele não está satisfeito em casa por causa das brigas com o pai. Culpa pelo pai que eu dei para para ele. Vou sair mais cedo.

Reflexões sobre a sessão

Paciente que transforma em psicossomática tudo o que é dela. A dor pela separação e a dor por não ter feito o que o filho fez. Para ela, que não fez a escolha do filho, só resta pensar a maneira de morrer.

Paciente chora escondido, não pode enfraquecer.

Não quer que fosse nada para não sentir dor. Sai mais cedo.

Para Joyce Mc Douglas a expressão psicossomática trata-se da regressão mais primária e profunda do ser. A fronteira entre a dor física e a dor psíquica é bastante confusa, tão confusa quanto a relação entre corpo erogêno e corpo biológico.

O discurso sobre a dor implica um paradoxo e uma contradição que são inerentes.

A relação entre dois terrenos de sofrimento é tal que a dor surgindo em um deles provoca inevitavelmente algum efeito no outro, pelo menos enquanto o psicossomática funcionar como um todo. Os caminhos, que permitem essa permeabilidade, podem estar bloqueados, tendo acesso a sua representação o sujeito pode confundir o conteúdo afetivo, penoso com a sensação corporal, dolorosa ou ainda substituir um ao outro com vista defensivas.

Na sessão apresentada a Paciente luta para pôr em evidência um sofrimento físico, a fim de mascarar um estado de dor mental. Para Joyce a somatização face às sobrecargas afetivas e acontecimentos traumáticos está ao alcance de todos nós. Estando presente muitas vezes como uma entre tantas outras tentativas de auto resolução do conflito utilizado pelo sujeito. Pela sua experiência clínica diria que o aparente distanciamento, à relação dislibinizada, operatória e à pobreza de expressão ao captar e comunicar vivências afetivas possuem algo de positivo.

Ambos atestam a existência de um arranjo protetor, no sentido de que uma organização desse tipo pode constituir uma defesa sólida contra a dor mental em todos os seus aspectos, na relação com a imagem, frente às exigências pulsionais e na relação com os outros. Trata-se de uma defesa perigosa na medida em que corre o risco de se estabelecer a distância entre interior e exterior, entre dor emocional e corporal.

 

Maria Helena Alcântara Lisboa – Psicóloga Clínica Especialista