Entendendo o bebê através da psicanálise

Washington Magalhães

A Psicanálise

Falando sobre a Psicanálise é sabido que é criação de Sigmund Freud, nascido num local da Tchecoslováquia, mas que na época do seu nascimento estava anexada à Áustria e, assim ele é dado como austríaco, vivendo em Viena até 1939 quando, emigrando para a Inglaterra e fugindo do nazismo, morreu pouco depois.

Baseou o seu sistema de tratamento psíquico na associação livre de idéias que o analisando trazia ao consultório ficando o analisando deitado num divã e ele, Freud, sentado numa poltrona atrás do paciente.

Tentava avaliar o significado inconsciente das palavras, das ações, das emoções, das sensações, das imagens, dos gestos, dos sonhos, fantasias e delírios, tudo o que o analisando trazia ao set analítico (que é o local onde se realiza a consulta) permitindo assim descobrir se diferentes sintomas manifestados e narrados pelo paciente tinham relação com algo traumático que acontecera no passado e que estavam escondidos, inconscientes. Eram descobertas essas situações durante o tratamento pela rememoração do passado, numa espécie de autobiografia feita pelo paciente do presente para trás na sua vida.

Freud era passadista, ou seja, afirmava que a pessoa não era livre, pois havia uma força regressiva dirigindo-a sempre para o passado. Ele dizia que as nossas angústias, os nossos objetivos não estão para frente, mas sim para trás, uma vez que qualquer idéia que fazemos do nosso futuro está presa ao passado. Por isso ele achava que para tratar, analisar um paciente sempre é preciso ir ao passado, ao começo, ao princípio em busca dos possíveis motivos e traumas escondidos que poderiam ser causadores dos conflitos porventura existentes nos doentes.

Na regressão acontecida no adulto, tantas vezes chegava o paciente à meninice, mas sempre na direção do presente para o passado e consciente da importância das lembranças recalcadas que poderiam exercer nele influências negativas. E isso sempre através da fala. Daí Freud só tratar de adultos, pois as crianças têm dificuldade de se expressar. Naquela época, só tratava de adultos até o limite de 50 anos, pois achava que além dessa idade haveria por demais lembranças que tornariam o tratamento muito longo.

Ele criou um sistema que nomeou de metapsicologia ou psicologia profunda, um método que elaborou assinalando na personalidade três posições, três instâncias, três estruturas e que são: “O Id, que é o Inconsciente, o Ego, a Consciência, e o Superego, derivado mais tarde do Ego, uma espécie de supervisor”. Com o passar do tempo outras teorias apareceram diferentes da psicanálise de Freud, mas se elas aceitam esta metodologia também são consideradas de viés psicanalítico, portanto, com características psicanalíticas. Dada a importância deste método na psicanálise, surge a necessidade de se falar sobre ele nesta palestra.

O Id

Esta palavra é de origem latina e se refere aos aspectos bestiais de nossa natureza. É a primeira instância, a primeira estrutura, o pólo pulsional da personalidade em que seus conteúdos são inconscientes na condição de inatos e hereditários e adquiridos e reprimidos, por outro lado. É um reservatório pulsional desorganizado e caótico cheio de paixões desenfreadas, o manancial de todos os instintos, de todas as energias psíquicas profundas que nascem com o bebê. Todas as pulsões estão sempre querendo aflorar à superfície e se não fossem controladas pelo “eu” (o Ego), o consciente, a personalidade não se estruturaria devidamente.

“O princípio do prazer” é a maior motivação a que obedece e tem a função de descarregar as tensões biológicas. Este princípio tem por meta a realização de todos os seus desejos, de imediato, o que não pode acontecer porque senão o indivíduo entra em choque com a sociedade uma vez que é egoístico o desejo de cada um querendo tudo realizar de acordo com a vontade do seu Id. Ele é amoral e sem ética e não considera o tempo e espaço como o faz o Ego, o consciente.

Numa comparação por paralelo se inclui esta instância no esquema da “alma concupiscente de Platão”, também voltada para desejos e impulsos de origem genéticos cujos fins são a preservação e propagação da espécie. Achamos interessante mencionar Platão para mostrar que tanto tempo no passado já havia alguém sabendo da existência do inconsciente e, inclusive, dando uma conotação libidinosa a esta instância.

Surgiram na obra de Freud inovações, criações, formulações, e algumas no transcorrer do tempo foram modificadas. Contudo, o Id, o inconsciente escondido, submerso, misterioso, maior em relação às outras instâncias e poderoso o bastante, foi o alicerce que apareceu para explicar a personalidade humana, segundo a sua teoria.

Mas este inconsciente freudiano é individual e cada um de nós o tem, até certo ponto, tipificado. Aconteceu, porém, que um seu contemporâneo e colaborador, que mais tarde dele se afastou, Carl Gustav Jung, apontou um outro inconsciente, diferente do individual, que chamou de inconsciente coletivo. Dizia Jung que assim como herdamos características genéticas físicas de nossos ancestrais também as herdamos psiquicamente. Aos seus componentes ele chamou de arquétipos, que são memórias ancestrais da nossa espécie e que podem aparecer nos sonhos e descobertos quando interpretados, por exemplo.

O Ego

Agora, falando da segunda instância, o Ego. Sua função se estabelece no “princípio da realidade” operando pelo processo secundário. É “a parte racional da alma, do saber, no esquema platônico”, o consciente, uma estrutura muito importante. Perceptivo e inteligente é um meio caminho entre o Id e o Superego (o censor) buscando a mediania, o meio termo na pessoa entre os prazeres excessivos e permitindo o quanto possível a espontaneidade e o gozo da vida. Centra-se na triangular pressão dos desejos instintuais, insaciáveis e vontades tantas vezes descabidas do Id, a repressão austera do Superego e os perigos oriundos do mundo exterior e faz a distinção entre as coisas da mente e o mundo externo. É o executivo da personalidade. Submetendo-se ao Id tornar-se-á imoral e destrutivo; em contrapartida, cedendo aos imperativos tão-somente do Superego, o desespero e a insatisfação serão insuportáveis e, por fim, não obedecendo à realidade do mundo será destruído. Fundamentalmente, o Ego experiencía “uma angústia existencial permanente”, dado que sua tarefa se agiganta no comando do movimento voluntário e na incumbência da autopreservação: estabelece conexão entre a percepção sensorial e a ação muscular. Como se vê sua tarefa é árdua, complicada.

Cabe à psicanálise, como psicoterapia, o propósito de fortalecer este próprio Ego, no paciente, fazendo-o mais independente do Superego e permitindo equilíbrio entre o prazer e o desprazer. É bom que se diga, entretanto, que muita vez por não deixar o Ego realizar um desejo avassalador do Id, pode haver o que se chama de recalque, o qual pode provocar manifestações doentias no corpo. É a chamada somatização que vem da palavra soma, que quer dizer corpo.

O Superego

Tem a função de agir como juiz ou censor das atividades e pensamentos e nele se depositam os códigos morais, modelos de conduta, enfim, tudo aquilo que apreendido foi dos superegos dos pais. Conserva os mesmos conteúdos e veicula a tradição e valores de geração em geração.

Ele tem como funções a consciência, a auto-observação e a formação dos ideais. Age, proíbe ou julga a atividade consciente, porém é capaz de agir inconscientemente sob a forma de compulsões ou proibições. É a parte correspondente ao “vigilante da alma” na doutrina platônica. Representa o lado moral da personalidade, nele prevalecendo o ideal sobre o real, a perfeição sobre o prazer, o certo sobre o errado. Também nele as punições pela quebra de normas se incorporam à consciência. É a polícia interna.

Relações entre os três subsistemas

Instintivo e primitivo, primeiramente aparece no Id a energia que todo o sistema utiliza e pode-se dizer que ao Ego, cabe a cota de sacrifício maior em todo o mecanismo metapsicológico freudiano por ter de controla-lo tantas vezes em seus aspectos bestiais, animalescos.

A psicanálise – e mais uma vez se comenta -, deve sempre ter o propósito de tonificar o Ego fazendo-o mais independente do Superego abrangendo mais o seu campo de percepção e expandindo a sua organização, de maneira a captar novos conteúdos do Id. Seria a “individuação”, ou seja, o conhecimento cada vez maior no Ego (a inteligência) daquilo que de mais profundo subjaz no instintual e primitivo Id. Falar sobre isso.

As inovações da psicanálise de Freud (sexualidade infantil)

Freud escandalizou a sociedade vienense, a capital da Áustria, a cidade da valsa, onde primeiramente apareceram as suas proposições da sexualidade infantil, a qual existe, segundo ele, desde o nascimento do bebê. Evoluindo por sucessivas fases e de cada vez em uma determinada zona do corpo, que ele chamou de zona erógena, e que proporciona prazer quando estimulada. Este prazer, que ele também chamou de libido, é auto-erótico, pré-genital, anterior à maturação (ao amadurecimento) dos órgãos sexuais respectivos do bebê, não-centrada, portanto, no aparelho genital. Explora sensações sem ter um objeto, vira-se para dentro de si mesmo tornando-se narcisista e só depois é capaz de se orientar para um objeto. Falar de Copérnico, Darwin e ele… Também sobre o escândalo na sociedade vienense

Fase oral ou da libido oral ou hedonismo bucal, quando o desejo e o prazer se localizam principalmente na boca e a ingestão de alimentos e o seio materno, a mamadeira, a chupeta e os dedos são objetos de prazer. É o primeiro modelo de incorporação.

Fase anal ou da libido ou hedonismo anal, perto dos dois anos, quando a criança aprende o controle voluntário da defecação e descobre que “reter ou deixar” as fezes saírem são atividades prazerosas. O bebê quer brincar com as fezes, massas, comer coisas cremosas, sujar-se, dando-lhe tudo isso prazer.

Fase genital, fálica ou da libido ou hedonismo genital por volta dos três anos quando o desejo e o prazer se orientam para os órgãos genitais e a escolha é na parte do corpo onde existem tais órgãos. Nesta fase, o objeto do desejo se dirige na menina em relação ao pai e no menino no sentido da mãe.

A fase seguinte é a de latência em que há como um intervalo no amadurecimento psicológico da criança até chegar à fase da puberdade, a qual se distancia do propósito da palestra ora em andamento.

Como nosso tema se refere ao bebê, não falaremos sobre as outras fases de desenvolvimento da personalidade que acontecem depois dos dois anos, na teoria de Freud, como o “complexo de Édipo”. Todavia, não podemos deixar de dizer que o tempo em que se considera o nascituro como bebê vai até mais ou menos vinte e quatro meses, conforme pensam muitos autores. Nos primeiros dezoito meses o bebê age por conta dos seus sentidos e a sua ação motora – sua capacidade de se movimentar: “é o estágio sensório-motor”. Depois, ele entra na fase “representativo-simbólica”, o que quer dizer que é capaz de simbolizar, de representar pessoas ou coisas por outras imagens. Por exemplo: ao pensar na vovó já é possível ter uma imagem sua representativa da mesma; ou então a menina que fantasia ralhando com a boneca.