O mito de Narciso

Cukier, Rosa

Sobrevivência emocional : as dores da infância revividas no drama adulto / Rosa Cukier. — São Paulo : Ágora, 1998.

Da mesma forma que nas sessões fictícias de Narciso com Moreno, muitos pacientes que recebemos nos surpreendem com um pedido de ajuda ambivalente: a queixa de um vazio existencial, por um lado, e certo ar blasé, de superioridade, por outro.

O DSM-III-R aponta como características essenciais do distúrbio narcisista de personalidade o padrão de grandeza — sensação de auto-importância, requerendo constante atenção e admiração; supersensibilidade à avaliação de outros, apresentando reações de raiva, vergonha e humilhação diante da crítica; falta de empatia e egocentrismo; preocupação com sentimentos de inveja.

Esta também é, curiosamente, a conotação popular do termo, pois, desde que o Mito de Narciso (Ovídio, 1983:58-61) foi primeiramente descrito, passando pelo uso que dele fez Freud, “narcisista” tem sido sinônimo de egoísta, orgulhoso, autossuficiente etc.

Se, entretanto, fosse possível fazer uma escultura de vidro para simbolizar essas pessoas, creio que apenas a parte externa combinaria bem com a descrição psiquiátrica e a popular. Seria a figura de um Homem ou de uma Mulher adultos, ambos altivos, fortes e auto-adoradores.

Já a parte interna dessa composição se mostraria muito diferente. Configuraria uma criança contraída, tampando os olhos ou os ouvidos com as próprias mãos! Vergonha, humilhação, inferioridade, falta de estima pessoal — estes seriam os sentimentos evocados pela face interna da imagem. Desvelada, contaria a história de uma criança que não se sentiu adequadamente amada ou cuidada na infância e que, com tijolos de ressentimento e/ou promessas de vingança, criou um muro de orgulho e autossuficiência em tomo de si.

O que aconteceu com essa criança? Como uma imagem tão impotente se transforma em outra tão soberba? Como ajudar esses pacientes, se a impressão que eles nos dão é de que não necessitam nada de ninguém? Como o Psicodrama, especificamente, pode auxiliar na compreensão e no tratamento desses distúrbios?

Estas são as perguntas que me movem para escrever sobre o assunto. Vou percorrer um longo caminho na tentativa de responder a elas partindo do Mito de Narciso narrado por Ovídio, passando pela Psicanálise, pelos Teóricos do Self, até chegar a Moreno.

Tentarei mostrar como Moreno, apesar de indiretamente, também se preocupou com as questões ligadas à autoestima, carecendo, entretanto, de uma conceituação de intrapsíquico que pudesse alojar essas relações do Eu com o Eu. Buscarei, portanto, inferir um modelo de intrapsíquico relacional, compatível com sua obra.

A última parte deste capítulo afirma a minha forma de compreender o desenvolvimento humano, partindo da auto-estima resultante das primeiras relações de dependência até a estruturação de defesas narcísicas. O Psicodrama com cenas regressivas é, então, proposto como instrumento terapêutico fundamental, para lidar com distúrbios narcísicos da personalidade.

Segundo Ovídio, Narciso foi fruto do estupro de Liríope por Céfiso e, desde o seu nascimento, foi-lhe augurado por Tirésias que viveria muito “caso não se conhecesse”. Aos 16 anos, dono de imensa beleza, era amado por todos, moços e moças da época, inclusive por Eco, a quem recusa rudemente e que, por amargura, deixa seu corpo e pele se consumirem e evaporarem no ar, sobrevivendo como voz e ossos.

Assim, Narciso decepciona vários jovens, e um deles, despeitado, ergue sua voz aos céus e exclama:

“Que ele ame, por sua vez, e não possa possuir o objeto amado!”.

A deusa da vingança, Némesis, atende a essa prece e faz com que aconteça o amor de Narciso por sua própria imagem, refletida nas águas de uma fonte, junto à qual ele se sentara para descansar e saciar a sede.

Enquanto bebe, arrebatado pela imagem da própria beleza que vê, apaixona-se por um reflexo sem substância, toma por corpo o que não passa de sombra. Deseja a si mesmo, louva e inspira a paixão que sente, quer abraçar a imagem, mergulhando os braços na água, turvando-a e perdendo o que mais queria!

Deixa de se alimentar ou de cuidar-se, contemplando, insaciável, a imagem mentirosa. Definha e morre pouco a pouco, sem a beleza, o vigor e o ânimo que seduziam os jovens de outrora.

Em lugar do corpo, acharam, à beira do riacho, uma flor dourada, rodeada de folhas brancas!