Os Paradigmas na obra de Jung

Maria Helena Alcântara Lisboa e Mauro Gonçalves Cesar

O presente trabalho pretende destacar a importância dos paradigmas como norteadores do pensamento científico e identificar as mudanças de paradigmas na física, a ciência-referência, e a influência desses paradigmas na evolução do pensamento de Jung.

Busca também ressaltar a importância do caráter transgressor do pensamento de Jung, sem verdades absolutas ou saberes marginais, analogamente à metáfora de Dona Flor, capaz da ousadia da vida além e apesar do instituído.

De vez que estaremos trabalhando por identificar e compreender o paradigma adotado por Jung, primeiramente importante seria verificar como é definido um paradigma. Segundo a enciclopédia Wikipédia, – “Paradigma é a representação do padrão de modelos a serem seguidos. É um pressuposto filosófico matriz, ou seja, uma teoria, um conhecimento que origina o estudo de um campo científico; uma realização científica com métodos e valores que são concebidos como modelo; uma referência inicial como base de modelo para estudos e pesquisas”. Dessa forma, como modelo e matriz filosófica, o paradigma então adotado, assume fundamental importância na concepção e formulação do conhecimento científico produzido.

O paradigma está para as ciências em geral, assim como os princípios legais estão para a ciência jurídica, pela função que ambos possuem como norteadores do conhecimento. Ignorar um princípio jurídico é muito mais grave que afrontar uma lei, de vez que uma lei regula apenas uma situação específica e um princípio embasa e justifica todo um conjunto de leis. Desta forma, se inconciliáveis com o conhecimento produzido – ou se revê as conclusões deste conhecimento ou estaremos irremediavelmente às voltas com a necessidade de mudança do paradigma. Assim evolui a ciência.

Por outro lado, como modelo que origina o conhecimento científico, o paradigma também não fica adstrito a uma determinada área de conhecimento, podendo permear várias áreas do conhecimento, fazendo com que uma ciência possa transbordar seus paradigmas para outras – como é o caso da Física.

Por fim, de se destacar que paradigmas não são estanques no sentido de vedar o fluxo de idéias ou condenar verdades cientificas. Diferentes paradigmas convivem validamente entre si, respaldando conhecimentos científicos igualmente válidos. A física newtoniana, embora assentada sobre um paradigma essencialmente diferente da moderna física quântica, continua válida e cientificamente coerente.

Da evolução dos paradigmas e transformações do pensamento:

A partir do século XVI o mundo experimentou o que ficou conhecida como Revolução Científica. Tem início com a Astronomia de Copérnico, teoria Heliocêntrica, mas com a Mecânica de Newton alcança todo o seu apogeu. Era o surgimento da Física com as leis da gravitação universal, as leis do movimento etc. Era a supremacia da razão – a ciência se separava da Filosofia. O conhecimento era conseqüência da observação e da experimentação e, dessa forma, deveria poder ser repetido, controlado e confirmado, produzindo um saber de certezas, que mais que responder às respostas das ciências naturais, lançava o modelo de como deveria ser o próprio conhecimento científico. Um conhecimento marcado por um paradigma determinista, reducionista e mecanicista.

Em 1905, Einstein introduziu uma nova concepção no pensamento científico com a teoria da relatividade que, embora tenha complementado a estrutura da física clássica, trouxe mudanças radicais quanto aos conceitos de espaço e tempo – efetivamente relativizou verdades. Entretanto, a essência do paradigma anterior se manteve – o mundo continuava ordenado e determinável.

Na década de 20 a teoria quântica derrubou os conceitos clássicos de objetos sólidos e de leis estritamente determináveis na natureza. Para Heisenberg o conhecimento não poderia ignorar o “princípio da incerteza”, que afirma a impossibilidade de uma certeza absoluta. Estudando os elétrons, Heisenberg, verificou que quanto maior a certeza da sua posição, maior a incerteza quanto à velocidade do mesmo. Além disso, o próprio ato da observação distorce pelo menos uma das variáveis observadas – ou seja – existe uma limitação objetiva da singularidade em tentar apreender a generalidade. Na melhor das hipóteses, podemos fazer medições e predições prováveis ou estatísticas. Enfim, sem pretender a verdade oceânica em sentidos de copo d’água.

Agora não mais um mundo previsível, determinável, mas um universo altamente complexo, interativo, forjando um novo paradigma, capaz de conviver com incertezas, ao invés de verdades absolutas, em que a certeza passa a ser produzida por probabilidades.

Jung visita Dona Flor

Como diria Albert Camus – “Os tristes têm duas razões de tristes ser: eles ignoram ou eles esperam e, na maioria dos casos, esperam porque ignoram”. Vendo sob este prima, Jung não foi triste. Não se quedou a esperar, nem se ateve sem saber. Buscou, ousou. Esposou o conhecimento instituído, mas nunca se fechou ao fascínio do novo e para isso não se furtou a usar novas ferramentas, novos paradigmas que lhe possibilitassem compreender a complexidade do fenômeno humano.

Casado com a ciência tradicional e sem abrir mão do rigor científico, serenamente manteve uma relação estável e sem preconceitos com conhecimentos considerados “marginais”, que teimosamente convivem dentre os saberes humanos como a astrologia, a alquimia, mandalas etc.

Nas diferentes fases de seu trabalho, conforme a síntese da periodização de sua obra, é latente a preocupação de Jung em abranger toda a complexidade do fenômeno humano, ainda que isso, penosamente, tivesse representado para ele a necessidade de romper com pessoas, dogmas e paradigmas.

Inegável que Freud foi um mestre para Jung e, provavelmente, uma forte referência para o resto da sua vida (ainda que discordante), contudo, em determinado momento, analogamente à metáfora de Dona Flor, Freud tornou-se o próprio “Teodoro” de Jung – o beco sem saída, a síntese do autoritarismo e da castração.

O imaginário, também analogamente, surge em “Vadinho”; a busca do novo, o acolhimento da vida por Jung a partir de novos saberes e paradigmas, uma relação quase “adúltera” com a ciência, de buscas e descobertas, capaz de conceber a psique integrada a um modelo muito mais amplo, de padrões interligados e sistematizados, individual e coletivamente.

Assim como Dona Flor, Jung não se limitou ao instituído, ao código que dele se esperava e pelo qual foi cobrado. Não deixou de encarar a própria ambivalência, apostando numa coerência maior, embora calcada em verdades sem garantias, não definitivas.

De alguma forma semelhantes e marginais, Jung e Dona Flor ousaram uma outra realidade, que tal como a própria ciência é vivência real e transcendente, é exercício que escapa ao uno diante da limitação dos sentidos e da razão.

Assim como Dona Flor, em sua metáfora de dois maridos, Jung retrata uma duplicidade convergente, que questiona a própria realidade e dialeticamente confronta universos diferentes, que podem ser traduzidos como espaços simbólicos e culturais de nós mesmos e, como tal, assentado em certezas provisórias, mistério e beleza.

Bibliografia:

CAPRA, Fritjof. O ponto de mutação: a Ciência, a Sociedade e a Cultura
emergente. São Paulo: Cultrix, 1993.

Chaves-resumo das obras completas Jung/ Carl Gustav Jung ; [
coordenação editorial Carrie Lee Rothgeb, National Clearinghouse for
Mental, Health Information ; tradução Arlene Ferreira Caetano ]. –
São Paulo : Editora Atheneu, 1998.

Memórias, sonhos e reflexões.Rio de Janeiro:Nova Fronteira,1981

Warat, Luis Alberto, A Ciência Jurídica e seus dois Maridos, Faculdades Integradas de Santa Cruz do Sul/RS, 1985.

Braga, Jorge Luiz de Oliveira, Aspectos Gerais da Psicologia Junguiana, Pós-graduação Psicologia Junguiana – Turma 2007, aula.