Pessoas com depressão usam a linguagem de forma diferente

Texto original do site The Conversation

2 de fevereiro de 2018

https://theconversation.com/people-with-depression-use-language-differently-heres-how-to-spot-it-90877

Tradução livre: Fernanda Ferreira

A depressão muda quase tudo desde a maneira como você se move, dorme e como você interage com as pessoas ao seu redor. É até perceptível na maneira como você fala e se expressa por escrito. Às vezes, essa “linguagem da depressão” pode ter um efeito poderoso nos outros. Basta considerar o impacto da poesia e das letras das músicas de Sylvia Plath e Kurt Cobain, que se mataram após sofrerem de depressão.

Os cientistas tentam determinar a relação exata entre depressão e a linguagem usando tecnologia para ajudar a chegar mais perto da resposta. Nosso novo estudo, publicado na Clinical Psychological Science, já revelou uma classe de palavras que podem ajudar a prever com precisão se alguém está sofrendo de depressão.

Tradicionalmente, as análises linguísticas neste campo foram realizadas por pesquisadores que leem e fazem anotações. Atualmente, os métodos de análise de texto computadorizado permitem o processamento de bancos de dados extremamente grandes em minutos. Isso pode ajudar a identificar características linguísticas que os humanos podem perder, calculando a prevalência percentual de palavras e classes de palavras, diversidade lexical, comprimento médio das sentenças, padrões gramaticais e muitas outras métricas.

Até agora, relatos pessoais e diários de pessoas deprimidas têm sido úteis, assim como o trabalho de artistas conhecidos como Cobain e Plath. Para a palavra falada, trechos de linguagem natural de pessoas com depressão também forneceram insight. Em conjunto, os resultados de tal pesquisa revelam diferenças claras e consistentes na linguagem entre aqueles com e sem sintomas de depressão.

 

Conteúdo

A linguagem pode ser separada em dois componentes: conteúdo e estilo. O conteúdo está relacionado ao que expressamos – isto é, o significado ou assunto das declarações. Não surpreende ninguém saber que aqueles com sintomas de depressão usam uma quantidade excessiva de palavras que transmitem emoções negativas, especificamente adjetivos e advérbios negativos – como “solitário”, “triste” ou “infeliz”.

Mais interessante é o uso de pronomes. Aqueles com sintomas de depressão usam significativamente mais pronomes de primeira pessoa do singular – tal como “meu”, “eu mesmo” e “eu” – e significativamente menos pronomes de segunda e terceira pessoa – tal como “eles”, “deles” ou “ela”. Esse padrão de uso de pronomes sugere que pessoas com depressão são mais focadas em si mesmas e menos conectadas com outras. Pesquisadores relataram que os pronomes são realmente mais confiáveis ​​na identificação de depressão do que palavras de emoção negativa.

Sabemos que a ruminação (que se baseia em problemas pessoais) e o isolamento social são características comuns da depressão. No entanto, não sabemos se essas descobertas refletem diferenças no estilo de atenção ou pensamento. A depressão faz com que as pessoas se concentrem em si mesmas, ou as pessoas que se concentram em si mesmas têm sintomas de depressão?

 

Estilo

O estilo da linguagem está relacionado à maneira como nos expressamos, e não ao conteúdo que expressamos. Nosso laboratório conduziu recentemente uma análise de texto em big data de 64 diferentes fóruns online de saúde mental, examinando mais de 6.400 membros. “Palavras absolutistas” – que transmitem magnitudes absolutas ou probabilidades, como “sempre”, “nada” ou “completamente” – foram consideradas melhores marcadores para fóruns de saúde mental do que pronomes ou palavras de emoção negativa.

Desde o início, previmos que aqueles com depressão terão uma visão mais preta e branca do mundo, e que isso se manifestaria em seu estilo de linguagem. Comparado a 19 fóruns de controle diferentes (por exemplo, Mumsnet e StudentRoom), a prevalência de palavras absolutistas é aproximadamente 50% maior em fóruns de ansiedade e depressão, e aproximadamente 80% maior em fóruns de ideação suicida.

Os pronomes produziam um padrão de distribuição similar às palavras absolutistas nos fóruns, mas o efeito era menor. Por outro lado, palavras de emoção negativa eram paradoxalmente menos prevalentes em fóruns de ideação suicida do que em fóruns de ansiedade e depressão.

Nossa pesquisa também incluiu fóruns de recuperação, onde os membros que se sentem recuperados de um episódio depressivo escrevem posts positivos e encorajadores sobre sua recuperação. Aqui descobrimos que as palavras de emoção negativa foram usadas em níveis comparáveis ​​para fóruns de controle, enquanto as palavras de emoção positiva foram elevadas em aproximadamente 70%. No entanto, a prevalência de palavras absolutistas permaneceu significativamente maior que a dos controles, mas ligeiramente menor do que nos fóruns de ansiedade e depressão.

Crucialmente, aqueles que já tiveram sintomas depressivos são mais propensos a tê-los novamente. Portanto, sua maior tendência para o pensamento absolutista, mesmo quando atualmente não há sintomas de depressão, é um sinal de que ele pode desempenhar um papel na causa de episódios depressivos. O mesmo efeito é visto no uso de pronomes, mas não para palavras de emoção negativa.

 

Implicações práticas

Entender a linguagem da depressão pode nos ajudar a entender a maneira como as pessoas com sintomas de depressão pensam, mas também tem implicações práticas. Pesquisadores estão combinando análise automatizada de texto com aprendizado de máquina (computadores que podem aprender com a experiência sem serem programados) para classificar uma variedade de condições de saúde mental a partir de amostras de texto de linguagem natural, como posts em blogs.

Essa classificação já está superando a de terapeutas treinados. É importante ressaltar que a classificação de aprendizado de máquina só melhorará à medida que mais dados forem fornecidos e algoritmos mais sofisticados forem desenvolvidos. Isso vai além de olhar para os padrões gerais de absolutismo, negatividade e pronomes já discutidos. O trabalho começou no uso de computadores para identificar com precisão subcategorias cada vez mais específicas de problemas de saúde mental – como perfeccionismo, problemas de auto-estima e ansiedade social.

Dito isto, é claro que é possível usar uma linguagem associada à depressão sem estar realmente deprimido. Em última análise, é como você se sente ao longo do tempo que determina se você está sofrendo. Mas como a Organização Mundial de Saúde estima que mais de 300 milhões de pessoas em todo o mundo estão vivendo com depressão, um aumento de mais de 18% desde 2005, ter mais ferramentas disponíveis para detectar a doença é, certamente, importante para melhorar a saúde e prevenir suicídios.

Mohammed Al-Mosaiwi, PhD Candidato em Psicologia, Universidade de Reading

 

Este artigo foi originalmente publicado no The Conversation